Ao “epigramar” sentimos como se memórias recalcadas ou involuntárias
irrompessem quando e onde menos se espera e abordassem os passantes.
Para escrever utilizaria letras adesivas, tanto pelo caráter efêmero, quanto
porque eu poderia removê-las a qualquer tempo, caso fosse pega em flagrante.
Esse “álibi” me ajudava a controlar a ansiedade antes de realizar as colagens.
Caso conseguisse decalcar toda a frase, se não houvesse outras interferências,
o sol, o vento e a chuva se encarregariam de apagá-la. Mas, ao menos por um momento,
a inscrição identificaria o local com o fato, e a memória desaparecida
se tornaria pública outra vez.
Fiz os primeiros epigramas em 28 de novembro de 2019, antes das 9h30 da manhã. Eu e (a artista)
Luíza Reginatto
nos encontramos no Parque da Redenção e aguardamos diminuir o movimento em frente ao Colégio Militar. Como a circulação não arrefecia, fomos até o Auditório Araújo Vianna. Aquele havia sido o local em que
Manoel Raymundo Soares
foi preso, em 1966, ainda durante o governo de Castelo Branco. O sargento distribuía panfletos carimbados com a frase “Abaixo a ditadura” quando foi detido.
Meses depois seu corpo seria encontrado boiando entre os juncos da
Ilha das Flores,
com marcas de tortura. Naquela manhã, em frente ao auditório, escrevemos LOCAL DE CAPTURA DE MANOEL RAYMUNDO.
Nessa primeira colagem pressenti que a ação superava o anacronismo e encontrava ressonâncias com o parque, com a cidade.
Sem pensar muito voltamos, outra vez, ao Colégio Militar. Muito movimento na José Bonifácio, impossível fazer a colagem. Quem sabe na Av. Venâncio Aires? Estava vazia mas assim que chegamos um oficial dobrou a esquina e caminhava na nossa direção. Como a quadra é muito grande, calculamos que conseguiríamos colar e escapar a tempo. Adesivamos CARLOS LAMARCA ESTUDOU AQUI na parede do Colégio, fotografamos e atravessamos a rua correndo. Eu senti medo, Luíza disse que não. Pensei no medo enquanto alguma memória congênita de quem nasceu nos últimos anos da ditadura.
Carlos Lamarca estudou aqui.
Os epigramas desvelam o que está por baixo de camadas de cidade.
Trata-se de frases curtas, relativas a eventos da ditadura militar,
decalcadas diante dos endereços onde os mesmos ocorreram.
Fachadas, muros, calçadas, tapumes, ruas e pedestais servem de suporte.
Arquivo DOPS foi incinerado em 1982, há indícios que cópias estejam em posse do III Comando Militar Sul.
Colamos epigramas no sul, leste, oeste e norte de Porto Alegre.
O trabalho se relaciona com o deslocamento e com a presença. Ao “epigramar”
sentimos como se memórias recalcadas ou involuntárias irrompessem quando
e onde menos se espera e abordassem os passantes.
Google maps com o trajeto dos pontos extremos dos epigramas na cidade de Porto Alegre.
Os epigramas também evidenciam memórias a partir de suas dimensões discretas e
de sua duração efêmera, à maneira de parênteses no espaço urbano.
Emergir as memórias da ditadura no corpo da cidade é o nosso objetivo.
Todavia não estamos no domínio do perene de uma inscrição em pedra, mas
na temporalidade de um adesivo. A dispersão das letras e, consequentemente,
a perda gradual da leitura, é uma forma de performar o desaparecimento e o descaso
com estas informações e memórias, seja a nível público (político e judiciário) ou privado.
A maioria dos epigramas foram colados no chão, portanto, se relacionam com as deambulações,
com as caminhadas e os caminhantes. Emergir as memórias da ditadura no corpo da cidade é o nosso objetivo.
Ainda, os epigramas podem ser removidos, a qualquer tempo, por qualquer pessoa.
Assim como inscrevemos, oferecemos a oportunidade para o apagamento completo
ou a formação de algum anagrama. São frases acerca da ditadura militar relacionadas
ao local onde estão. Outro formante é o tempo, a duração da frase, desde a colagem,
passando pela erosão das letras e perda de leitura, até o apagamento.
Boa parte das frases foram decalcadas no chão. Colamos epigramas nas vias, seja no asfalto
da Rua Riachuelo ou numa chapa de metal entre as pedras de calçamento da Av. Sepúlveda- e também nas calçadas.
Bolinhas de gude.. Bolinhas de gude… Bolinhas de gude
Caminhando percebi que as pedras de meios-fios do centro histórico eram, em geral,
um granito de coloração entre o rosa e o marrom. Algumas dessas pedras continham
as marcas do tempo urbano, visível na superfície polida pela passagem de inumeráveis
pés; visível, outras vezes, nas fraturas da rocha. Certamente essas pedras já estavam
nas ruas bem antes de 1964. Foi através destas vias que os estudantes correram dos policiais,
que os presos encapuzados foram transferidos, que as manifestações tentavam despistar,
com bolitas, a cavalaria. Tal pedra- o granito- se repetia também nos blocos de calçamento,
nos mosaicos de calçada de inspiração portuguesa, nas edificações, a exemplo do
III Comando Militar Sul e da Catedral Metropolitana.
Num artigo que associa a geologia com as características
arquitetônicas e urbanísticas, descrevem-se essas relações entre Porto Alegre e as rochas.
Transferências de presos políticos encapuzados
que relataram medo do 'desaparecimento'
Exposição Território Provisório, na Galeria Ecarta (2021)
Aproximo-me das reflexões de Richard Serra (2014) sobre o peso ao entrar na galeria com nove blocos de meios-fios de granito.
Exposição Território Provisório, na Galeria Ecarta (2021). O conjunto de meios-fios pousado no chão reforçava a sensação de peso. Juntos somavam entre 1,5 a 2 toneladas.
Exposição Território Provisório, na Galeria Ecarta (2021). O conjunto de meios-fios pousado no chão reforçava a sensação de peso. Juntos somavam entre 1,5 a 2 toneladas.
Exposição Território Provisório, na Galeria Ecarta (2021). O conjunto de meios-fios pousado no chão reforçava a sensação de peso. Juntos somavam entre 1,5 a 2 toneladas.
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Além de figurar na paisagem urbana da Porto Alegre antiga,
a pedra granítica era também seu substrato rochoso, seu coração.
A presença do granito reforçaria a relação dos epigramas com a cidade e sua história,
seja ela humana ou geológica.
Condomínio Revolução 1º de abril
Outra relação com o peso está na própria memória de um período da ditadura
que passou a ser conhecido como anos de chumbo, em referência ao filme de Margarethe Von Trotta,
Die bleierne Zeit (Tempos de chumbo, em tradução literal).
Em contraposição ao peso, às toneladas, o leve. Como impregnar o leve de peso ou vice-versa? Como dar conta da tortura, das prisões arbitrárias, do desaparecimento de arquivos, de pessoas, de tanta memória recalcada?
Todo aquele medo, todos aqueles lugares, toda experiência - desde o furto do celular durante uma colagem, à vigilância dos quartéis quando, em poucos segundos, levantávamos uma placa diante da fachada — tudo isso reduzido às imagens que, agora, seriam impressas. Lembrei-me da caixa de fotografias da família, a maioria das fotos em tamanho 10x15, particularmente as impressões entre os anos 70 e 80. Quando verti os registros para este tamanho sobraram pequenas margens brancas nas laterais. Lembrei-me, então, que alguns cartões postais apresentavam essas mesmas margens.
Sim, os epigramas se pareciam com cartões postais.
Quando vi as fotografias impressas pensei que precisava conferir ao conjunto uma veladura, uma opacidade. Explico: como as
informações das frases dos epigramas, em geral, estão inacessíveis na memória e no tecido social, revelá-las de imediato não me parecia
uma boa estratégia.
Para encontrar o mapa escreveria o endereço onde foi realizada cada colagem no verso, à maneira dos cartões postais que indicavam o
endereço da imagem retratada ou, ainda, da mesma forma que algumas fotografias de família traziam o lugar do registro no verso do
papel fotográfico. O endereço remetia ao contexto exato onde cada frase foi colada, devolvendo o trabalho para a rua, articulando
a lembrança desses espaços com a ditadura e, por fim, indicando a possibilidade de visitação do trabalho in loco
O último dia de colagem foi um capítulo à parte.
Caminhando pela Sete de Setembro em direção ao trem (iríamos ao Aeroporto),
cruzei por três colagens antigas. A primeira, diante do Cais do Porto, a segunda,
no muro da UGAPOCI- União Gaúcha dos Policiais Civis e a última, na Av. Sepúlveda.
Ao passo que a colagem ao lado do cais estava intacta, logo abaixo se via uma placa
de estacionamento e, naquela tarde, o movimento por ali era intenso.
Era como se a informação de tortura estivesse absorvida pela tarde de domingo
e pela iniciativa de marketing.
Visível e ao mesmo tempo oculta, uma escrita inconsciente no corpo da cidade.
Já a colagem da UGAPOCI havia sido apagada de maneira sistemática, letra por letra,
até que não restasse uma única serifa. Vendo aqueles epigramas e indo fazer outros três,
senti como se a cidade fosse a minha matéria. Agora percebia: ela se comunicava e reagia
a mim como num processo de atelier.
Ugapoci (União Gaúcha dos Policiais Civis).
Local atendeu presos políticos sob custódia
do DOPS
Em uma rua sem saída do Rubem Berta o vento se fazia perceber, sacudindo árvores, empurrando as folhas. A cidade já não era como naquele início de tarde, somavam-se os lamentos do vento e as nuvens de frio. Colaríamos a frase diante de uma caixa de luz dentro do terreno de uma casa que parecia, ao mesmo tempo, familiar e abandonada.
Mesmo que os epigramas acabassem ali, aquelas rajadas de vento que pareciam vir do alto e do distante revelavam que a história era maior, muito maior do que jamais imaginávamos.