ilha do
presídio

Fotografia colorida. Em primeiro plano, na parte inferior da imagem, um grupo de aproximadamente 13 pessoas está sentado na proa de um barco. A suas costas, em plano secundário, o Guaíba, junto a conformações rochosas da Ilha do Presídio.

Documentário Viagem à Ilha do Presídio: Ilhas de memória, Pontos de luz de Vanessa Solis Pereira
Ilhas de Memória. Por Edson Luiz André de Sousa



A ilha das Pedras Brancas, também conhecida como Ilha do Presídio no Rio Guaíba em Porto Alegre é um dos arquivos vivos de uma história que precisamos revisitar. Ali funcionou durante a ditadura civil-militar uma prisão de presos políticos e muitas histórias ainda aguardam lugar de pouso por sobre as grandes pedras brancas que circundam a ilha. Palavras que precisam sempre e sempre ser recolhidas para que uma Educação pela Pedra possa enfim cumprir sua função de transmissão.

A primeira vez que estive na ilha foi em 2013 durante a 9º Bienal do Mercosul. Nesta edição da Bienal vários passeios foram organizados para a visitação na Ilha como forma de abrir novas narrativas e memórias nestas ruínas e cinzas da história. A ilha é relativamente pequena, irregular e a primeira impressão que tive naquela primeira visita era de um grande labirinto. Um prédio em ruínas ocupando a parte central da ilha e, em suas bordas, pequenos caminhos e trilhas entre pedras e uma vegetação exuberante.





Ilha das pedras brancas. Foto de Manoela Cavalinho (2022)


A ilha fica a 2,5 km de Porto Alegre e foi desativada em 1983. A história desta ilha e dos destinos de sua função datam de muito antes. Desde 1860 funcionou como um depósito de pólvora e que foi abandonado em 1930. Depois ainda foi ocupada como um local para produção de vacinas contra a peste suína. No final dos anos 50 foi redesenhada para funcionar como um presídio e nos anos 70 como prisão política.
Fotografia colorida. Retrata a paisagem natural da Ilha das Pedras, entre água, rochas e vegetação terrestre.


Lembro-me do quanto fiquei impactado com esta primeira experiência e principalmente por saber tão pouco sobre todas estas histórias. Na época comecei a redigir um pequeno texto, que não passou de um parágrafo, para narrar esta visita. Estas vivências nos produzem ao mesmo tempo uma sensação de dor e dever de memória. Quantas histórias aquelas paredes não guardam: a beleza da paisagem, o por do sol do Guaíba, a amplidão de azul do céu, as noites frias e silenciosas, as histórias de tortura dos presos que ali estavam, as violências cotidianas a que eram submetidos, o medo, a incerteza quanto ao futuro nestes anos de sombra da ditadura no Brasil. Uma inquietude me acompanha desde aquela primeira visita e volta e meia pensava sobre o que seria preciso fazer para que aquele espaço pudesse ser integrado na história e na arquitetura da cidade como um Memorial. Este é um projeto ainda por vir e revivo esta inquietude agora escrevendo novamente sobre a ilha.

Em setembro de 2022 voltei à ilha em outra condição de memória e informação. Organizamos, com um grupo de colegas, um passeio dentro de uma proposta de trabalho vinculado ao Museu das Memórias (in)Possíveis da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Nosso museu tem justamente a função de fazer registros destas memórias que ainda buscam um espaço de inscrição. Reunimos um pequeno grupo para juntos abrirmos uma fresta neste véu de tantos silêncios da história de nosso país. Não que os acontecimentos não sejam conhecidos. Eles o são, mas parecem que muito rapidamente são também esquecidos, apagados, rasurados. Éramos em torno de 25 pessoas. Domingo pleno de sol, céu azul profundo, o Guaíba sereno. Tínhamos três presenças especiais que fizeram toda a diferença nesta viagem. Paulo de Tarso Carneiro e Raul Pont que estiveram presos na ilha nos anos 70 e a artista Manoela Cavalinho que tem feito um trabalho fundamental estes anos todos sobre as marcas de memória da ditadura militar no Brasil.


Fotografia colorida. Retrata parte de um muro, onde foi adesivada a seguinte frase: Local de embarque até a Ilha do Presídio




Colour photograph. It was taken from inside a boat, framing part of its windows and in the background part of the Mauá Quay. Colour photograph. The image frames a group of people inside a boat.


Teríamos todos a chance neste passeio de escutar de perto e dentro das ruínas do presídio alguns relatos do Paulo e do Raul e também acompanhar o trabalho da série Epigramas que Manoela iria fazer na ilha. Este trabalho consiste em fazer breves registros com letras autocolantes em alguns locais que guardam alguma história do período da ditadura. Os registros da Manoela são delicados, efêmeros e parecem dar forma ao impasse que sofre a memória quando busca um lugar de inscrição pois facilmente se apagam.




Sabemos bem o quanto as situações traumáticas oscilam entre a dificuldade de lembrar e a impossibilidade de esquecer. A memória tenta sempre abrir uma brecha nestes blocos monolíticos da fúria dos apagamentos. Este é um trabalho que precisa ser realimentado e nem sempre tem êxito, pois muitas vezes a sombra do esquecimento contamina a história. O Brasil tem padecido muito neste campo de uma política de memória. É um país que carece muito de memoriais.


Fotografia colorida. Em plano único, Manoela está sentada em uma passarela de madeira sob a água. Ela carrega material dos epigramas, enquanto decalca letra por letra na superfície de madeira

Manoela e os epigramas, na Ilha do Presídio (2022)


Em um domingo de sol pleno e azul profundo em setembro de 2022 embarcamos na ponta do gasômetro em nosso memorial flutuante. A luz do dia entrava como frestas vivas de memória nos monolitos do esquecimento sempre rondando os registros de história como no trabalho do artista catalão Francesc Torres de 1991 intitulado Amnésia-Memória no qual expõe a imagem de 13 pessoas que resistiriam ao fascismo franquista e que foram assassinadas e alguns ainda desaparecidos. Diante das imagens ele dispõe em letras de grande formato a palavra Amnésia e uma projeção, desta vez, com letras de luz, a palavra Memória.


A amnésia em letras sólidas, ferozes, ocupando espaço: duras, ásperas, imponentes, duradouras. A memória surge ali como espaço sutil de luz.

Nosso barco em direção a ilha era, portanto, nosso ponto de luz. O trajeto durou em torno de uma hora e neste tempo Paulo e Raul iam narrando as experiências do tempo em que ficaram presos. Por vezes, a voz embargada, nosso olhos atentos e por vezes líquidos em algumas lágrimas que reagiam as histórias que compartilhavam conosco: a circunstância de cada prisão, as estratégias de resistência para sobreviver psicologicamente naquele lugar inóspito, isolado, frio no inverno e excessivamente quente no verão, a solidariedade, a biblioteca clandestina, o futebol improvisado em uma laje em ruina, os relatos de tortura, as ameaças que ouviam, as visitas no domingo e a lógica de compartilhamento que instituíram com tudo que recebiam dos visitantes.

A ilha se aproximava imponente e agora vestida com todas estas memórias o lugar era outro. Estávamos desembarcando em um espaço carregado de histórias e as ruínas do prédio feriam ainda mais nossa memória. A urgência de construir neste lugar um memorial se fez ainda mais imperativo para todos os que estavam ali presentes. A ditadura no Brasil deixou muitas feridas abertas em nossa história e precisaremos instituir uma política de memória ampla para recuperar e dar forma a muitas histórias de violência que ainda estão na sombra. A arte e a literatura, sabemos bem, tem uma função fundamental neste processo pois sempre encontram formas inéditas de registro.

Manoela Cavalinho põe o pé na ilha impregnada dessas histórias no corpo e tantas outras que ela vem recolhendo estes anos todos com seu trabalho artístico. Nosso memorial, neste dia, estava em suas mãos. Ela toma a ilha como página viva da história e vai fazendo seus registros dos epigramas em alguns lugares da ilha redesenhando uma cartografia de memória: o banho de sol, o futebol, a avenida Liberdade e na plataforma precária de madeira na qual saímos do barco registra um dos relatos que ouviu, a saber, “Síndrome do motor de lancha. Atiravam no que se movesse durante a noite”.
Banho de Sol. Manoela Cavalinho (2022)

Um dos registros que mais me emocionou foi o que fez na parede da cela que funcionou como espaço de biblioteca dos presos. Ali, junto com o olhar também comovido do Paulo de Tarso e do Raul Pont, ela registra na parede com as pequenas letras autocolantes os três livros mais lidos por todos: Revolução dos Bichos e 1984 do George Orwell e Trópico de Câncer de Henry Miller.

A ilha com a intervenção artística da Manoela Cavalinho se tornou a partir daquela manhã um livro vivo à espera ainda de seus leitores que precisarão encontrar estas e tantas outras bibliotecas clandestinas que ainda estão na sombra em nosso país. É um dever de memória ir buscar estes textos vivos que ainda buscam desesperadamente um lugar de inscrição na história. Será que conseguiremos fazer um memorial deste lugar tão fundamental para nossa história?