A amnésia em letras sólidas, ferozes, ocupando espaço: duras, ásperas, imponentes, duradouras. A memória surge ali como espaço sutil de luz.
Nosso barco em direção a ilha era, portanto, nosso ponto de luz. O trajeto durou em torno de uma hora e neste tempo Paulo e Raul iam narrando as experiências do tempo em que ficaram presos. Por vezes, a voz embargada, nosso olhos atentos e por vezes líquidos em algumas lágrimas que reagiam as histórias que compartilhavam conosco: a circunstância de cada prisão, as estratégias de resistência para sobreviver psicologicamente naquele lugar inóspito, isolado, frio no inverno e excessivamente quente no verão, a solidariedade, a biblioteca clandestina, o futebol improvisado em uma laje em ruina, os relatos de tortura, as ameaças que ouviam, as visitas no domingo e a lógica de compartilhamento que instituíram com tudo que recebiam dos visitantes.
A ilha se aproximava imponente e agora vestida com todas estas memórias o lugar era outro. Estávamos desembarcando em um espaço carregado de histórias e as ruínas do prédio feriam ainda mais nossa memória. A urgência de construir neste lugar um memorial se fez ainda mais imperativo para todos os que estavam ali presentes. A ditadura no Brasil deixou muitas feridas abertas em nossa história e precisaremos instituir uma política de memória ampla para recuperar e dar forma a muitas histórias de violência que ainda estão na sombra. A arte e a literatura, sabemos bem, tem uma função fundamental neste processo pois sempre encontram formas inéditas de registro.
Manoela Cavalinho põe o pé na ilha impregnada dessas histórias no corpo e tantas outras que ela vem recolhendo estes anos todos com seu trabalho artístico. Nosso memorial, neste dia, estava em suas mãos. Ela toma a ilha como página viva da história e vai fazendo seus registros dos epigramas em alguns lugares da ilha redesenhando uma cartografia de memória: o banho de sol, o futebol, a avenida Liberdade e na plataforma precária de madeira na qual saímos do barco registra um dos relatos que ouviu, a saber, “Síndrome do motor de lancha. Atiravam no que se movesse durante a noite”.
Um dos registros que mais me emocionou foi o que fez na parede da cela que funcionou como espaço de biblioteca dos presos. Ali, junto com o olhar também comovido do Paulo de Tarso e do Raul Pont, ela registra na parede com as pequenas letras autocolantes os três livros mais lidos por todos: Revolução dos Bichos e 1984 do George Orwell e Trópico de Câncer de Henry Miller.
A ilha com a intervenção artística da Manoela Cavalinho se tornou a partir daquela manhã um livro vivo à espera ainda de seus leitores que precisarão encontrar estas e tantas outras bibliotecas clandestinas que ainda estão na sombra em nosso país. É um dever de memória ir buscar estes textos vivos que ainda buscam desesperadamente um lugar de inscrição na história. Será que conseguiremos fazer um memorial deste lugar tão fundamental para nossa história?