Fragmentos da casa e da memória - (p.23-45)[Memorabílias - Pai][o trabalho] parte da lembrança de uma conversa entre minha mãe e minha avó sobre guardar ossos no guarda-roupa. Acontece que, desde sempre, senti medo do guarda-roupa. Talvez por ser um móvel grande, ou porque o imaginava enquanto um portal, uma espécie de Nárnia ao contrário: se, às vezes, as coisas “desapareciam” lá dentro, quem sabe o móvel também faria aparecer?


Segundo o dicionário Collins, poltergeist corresponde a um fantasma ou uma força sobrenatural que movimenta móveis ou objetos ao redor. Didi-Huberman associa a força cinética do poltergesit “a uma insubordinação de uma criança desejosa de escapar do marco paterno e ansioso por seus próprios movimentos livres” (2018, p. 26). Mais sobre o assunto pode ser conferido na Conferência de Georges Didi-Huberman realizada no dia 24 de maio de 2013, como parte do projeto Histórias de Fantasmas para Gente Grande.
Instalação "Esqueleto no guarda-roupa" de Manoela Cavalinho. Casa de Cultura Mário Quintana. Foto de Fábio Alt (2022)
Imagem colorida. Em plano único, recorte de um guarda-roupa em cerejeira, sem portas, em um espaço expositivo, é iluminado. Na parte interior do objeto consta o seguinte texto: “Quem vem do centro chega aqui pela Ponte da João Pessoa, única com Palmeiras-da-Califórnia plantadas sobre o dorso. Seguindo uma quadra adiante, no sentido do rio, encontra-se a Ponte da Azenha. Suas tochas de pedra são uma cortesia dos antigos para iluminar o trajeto daqueles que saiam da cidade em direção ao camposanto. Meu pai trabalhava num prédio do qual eu me orgulhava. Possuía átrio, colunas e chamavam-no Palácio, distinções que as escolas públicas nas quais minha mãe trabalhou nunca alcançariam. Eu e minha mãe saímos de férias e não retornamos. Hoje me pergunto por que, na época, não estranhei. Voltamos uma única manhã quando a casa não funcionava mais. Abrimos a dispensa e cozinhamos macarrão para comer de café. Por aquela época, no interior, comecei a desenvolver medo patológico. No Palácio, quando anoitecia, os policiais fechavam a porta que dava acesso à fossa porque ainda escutavam gritos.”
“Quem vem do centro chega aqui pela Ponte da João Pessoa, única com Palmeiras-da-Califórnia plantadas sobre o dorso. Seguindo uma quadra adiante, no sentido do rio, encontra-se a Ponte da Azenha. Suas tochas de pedra são uma cortesia dos antigos para iluminar o trajeto daqueles que saiam da cidade em direção ao camposanto. Meu pai trabalhava num prédio do qual eu me orgulhava. Possuía átrio, colunas e chamavam-no palácio, distinções que as escolas públicas nas quais minha mãe trabalhou nunca alcançariam. Eu e minha mãe saímos de férias e não retornamos. Hoje me pergunto por que, nesta época, não estranhei. Voltamos uma única manhã quando a casa não funcionava mais. Abrimos a dispensa e cozinhamos macarrão para comer no café. Por aquela época, no interior, comecei a desenvolver medo patológico. No Palácio, quando anoitecia, os policiais fechavam a porta que dava acesso à fossa porque ainda escutavam gritos.”



Em Esqueleto no guarda-roupa [...] Sentia-me, não poucas vezes, envergonhada, constrangida. Questionei sua validade durante todo o processo.

O título (do trabalho) é uma tradução literal de skeleton in the closet ou skeleton in the cupboard que, segundo o dicionário Cambridge, é uma expressão utilizada para se referir a algo embaraçoso ou constrangedor do próprio passado ou da família.

Tive receio de lidar com um móvel tão grande e expor aquilo que de mais íntimo, mais secreto e mais vergonhoso havia no meu núcleo familiar.


Montagem com quatro fotografias a cores. Todas enquadram, desde perspectiva superior, um guarda-roupas em cerejeira, com detalhes decorativos no topo e pés esculpidos. O móvel sem portas repousa no piso. Dentro da peça, Manoela sentada, decalca material em seu interior."

Manoela inscrevendo no interior do guarda-roupa. Esqueleto no guarda-roupa esteve em exposição no Espaço Majestic, no térreo da Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre/RS/Brasil. Fotos de Daniela Prates (2021)

Neste trabalho imprimo um texto em relevo no fundo do móvel. Escrevi-o logo após escutar uma entrevista com Paulo de Tarso Carneiro veiculada pelo Cantos do Sul da Terra.

Na entrevista, Paulo de Tarso comenta:

Foi o caso de ir no Palácio da Polícia, era para liberar uma pessoa (...), mas lá, naquele meio, conversando, eu reconheci que estava dentro das dependências do DOPS e eu falei isso para os policiais. Foi interessante. Eles me mostraram a peça - isto foi no início dos anos 90 - que era conhecida como a fossa, e estava fechada. E um dos policiais me disse que, à noite, ninguém abria, porque havia muitos policiais que ouviam gritos, vindos lá de dentro. Ficou aquele folclore dentro da polícia que ali os maus-tratos haviam sido tão pesados, que eles, policiais, ouviam vozes, ouviam gritos. (Paulo de Tarso Carneiro, 2014)

Obs: Paulo de Tarso Carneiro foi um ativista político brasileiro que lutou contra a ditadura civil-militar brasileira. Em função disso, foi preso e severamente torturado. Seu testemunho poderá ser visto no botão "Ilha do Presídio" desta exposição.

Foi pelo rádio que compreendi que o Palácio da Polícia, local em que meu pai trabalhava, era também o porão do DOPS. Quem sabe fosse o meu pai a receber Paulo de Tarso pois, no início dos anos 90, ele trabalhava no Palácio e especulava acerca do sobrenatural. Quem sabe eu já conhecesse esta informação, mas ela permaneceu desvinculada de qualquer significado. Lembrei que em 2015 eu havia fotografado uma placa que o identifica enquanto local de tortura, mas não fiz qualquer associação. No final de 2020 soube que, de fato, meu pai trabalhou no DOPS. A informação chegou através de sua irmã mais nova que, até então, desconhecia o significado desta sigla. Contou também que meu avô se orgulhava do posto profissional do filho.


Iniciei a montagem de Esqueleto no guarda-roupa nos últimos dias de dezembro de 2020. Durante a montagem percebi que o móvel precisaria ficar encoberto. Era uma maneira de resguardar, de demarcar uma espera para aquilo que se passaria ali dentro, quando o texto fosse vertido. Cobri-o com um tecido. Queria que a instalação oscilasse em dois registros distintos, um diurno (coberto) e outro noturno, quando o texto se desvelaria.
Imagem colorida. Em ambiente interno de galeria expositiva, ao centro da foto, enquadra-se um guarda-roupas coberto por um tecido branco.
O guarda-roupa coberto era a promessa de subversão.


Para as instalações procuro por móveis que tenham relação com a minha memória e, ao mesmo tempo, que possibilitem que outros também se identifiquem.
 Imagem colorida. Enquadra uma pessoa manipulando uma substância líquida e a depositando em letras em alto relevo no fundo interior de um guarda-roupas


Com o guarda-roupa na Casa de Cultura Mário Quintana, reuni alfabetos em estêncil, cera de abelha, parafina e breu. O trabalho consistia em aquecer uma mistura em banho-maria para vertê-la sobre os moldes e, desta forma, transcrever o texto. Depois de desenformar as primeiras letras acrescentei pó xadrez a fim de aproximar a cor da mistura com a cor da madeira.
Como numa espécie de paralisia do sono, encontrava-me na borda de um gigantesco túnel do qual não era possível entrar nem sair, e só permanecer exigia um esforço enorme. Parecia escutar lamúrias e sentia uma enorme impotência. De alguma maneira, os dias de montagem me prepararam para esta sensação.
Na metade do processo comecei a sentir náuseas, tanto pelo desconforto físico quanto pela incerteza de contar essa história. Algumas vezes imaginava os familiares do meu pai cruzando pelo trabalho. Sentiriam vergonha de mim? Diriam que eu estava inventando e, afinal, não estava? Numa noite o desconforto tornou-se insuportável e senti falta de ar. Nesta mesma noite, voltando para casa, senti meus joelhos quase cederam bem em frente ao Museu Militar.
Acredito que nenhuma expiação é possível frente à memória daquilo que ainda resta da ditadura militar e, de outra forma, que aptidão teria eu para levá-la à cabo? De que maneira se sublima essas memórias? De quais maneiras se recorda?

[Numa vitrine do térreo da Casa de Cultura, durante a pandemia] Via o guarda-roupa enquanto uma orientação na cidade escura, fragmento de casa iluminada. Nas costas do móvel instalei quatro pequenas lâmpadas. De maneira quase imperceptível cada respiro do móvel era iluminado por uma “lambida” de luz. Representavam aquela luz intuitiva, de revelação, que percebi quando vislumbrei-o pela primeira vez.


Há alguns anos percebi que pensava em estruturas cheias que esvaziam, à maneira de um suspiro, e me lembrei dessa história. Incauta, pensei em descer ao porão, olhar para a cena, trazer algo. Não havia como. Primeiro, porque por mais que eu vislumbrasse a escada, jamais entraria na fossa. Não há como estar naquele lugar.

Imagem colorida. Fotografia tirada de cima. No topo da imagem encontra-se um guarda-roupas em cerejeira, com detalhes decorativos no topo e pés esculpidos. O móvel sem portas repousa no piso. Na parte inferior da imagem a artista Manoela, sentada no chão, cria o seguinte texto: “Quem vem do centro chega aqui pela Ponte da João Pessoa, única com Palmeiras-da-Califórnia plantadas sobre o dorso. Seguindo uma quadra adiante, no sentido do rio, encontra-se a Ponte da Azenha. Suas tochas de pedra são uma cortesia dos antigos para iluminar o trajeto daqueles que saiam da cidade em direção ao camposanto. Meu pai trabalhava num prédio do qual eu me orgulhava. Possuía átrio, colunas e chamavam-no Palácio, distinções que as escolas públicas nas quais minha mãe trabalhou nunca alcançariam. Eu e minha mãe saímos de férias e não retornamos. Hoje me pergunto por que, na época, não estranhei. Voltamos uma única manhã quando a casa não funcionava mais. Abrimos a dispensa e cozinhamos macarrão para comer de café. Por aquela época, no interior, comecei a desenvolver medo patológico. No Palácio, quando anoitecia, os policiais fechavam a porta que dava acesso à fossa porque ainda escutavam gritos.”


Manoela criando o material do guarda-roupa. Esqueleto no guarda-roupa esteve em exposição no Espaço Majestic, no térreo da Casa de Cultural Mário Quintana em Porto Alegre/RS/Brasil. Foto de Kevin Nicolai (2021)