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belo monte
diários de viagem
Textos de Maíra Brum Rieck
Setembro de 2015
Raimunda e João
JOÃO
  “Os olhos cegos de João: João tem pesadelos todos os dias. Sonha que está perdido na selva e que não sabe para onde ir. De repente fica cego. Sente-se sem saída. Quando acorda, o pesadelo não acabou. Continua sentindo-se cego. Diz que não sabe como dar sentido para sua vida. Diz que perdeu tudo, a vida, o sentido. A cegueira é a falta de futuro, são olhos que não sabem mais para onde ir. Sente que a vida acabou. O único sentido que vê é no sacrifício. Quer matar aqueles que destruíram sua vida, mas sabe que se o fizer, vai perder sua vida. Vê sentido no sacrifício. Mas, quando quis matar, suas pernas falharam e parou de andar. A voz se desfez em sua garganta e ficou mudo. O desejo de matar era tão forte quanto o desejo de viver. A paralisia veio impedir seu sacrifício. A vontade era a de matar, diz que
se matasse, poderia fazer diferença, iria se matar junto, mas seu sacrifício iria salvar as outras vítimas.
 João não gosta de ser vítima. É um homem forte que fez seu destino. Abandonado pelo pai, trabalhou a vida toda “com seus braços” para criar um lugar para si. Cego das letras, sua força física era sua força de trabalho. Até hoje, com mais de 60 anos, vemos os músculos bem torneados de uma pessoa que vendeu os músculos para grandes empresas. Trabalhou em muitas grandes obras do governo. Mesmo analfabeto, trabalhou em obras no Iraque, conheceu a França, e outros lugares. Quase foi para a China, a trabalho. Mas, nessa época, ele conta que já tinha família com dona Raimunda, e acabou voltando para casa. O objetivo sempre foi ter uma casa, construir um lugar. Seu João ia para onde o emprego estava. Como a maioria, não refletia o impacto de seu trabalho para além do salário que viria no final do mês. E, por essa razão, seu João é a encarnação da ironia.
 Passou grande da parte de sua vida trabalhando em barragens. Trabalhou na construção da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná e, mais tarde, na hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Nessa época seu João não pensava se a beleza das sete quedas seria destruída para sempre, ou se haveria impactos socioambientais. Trabalhava para viver, para sustentar sua família. Por essa acabou fazendo carreira como barrageiro. Na barragem de Tucuruí, o trabalho tinha um objetivo definido. Ia comprar uma casa para a família. E assim o fez. A ironia foi que, depois de pronta, a própria barragem que construiu, destruiu sua casa. Cálculos mal feitos da extensão da inundação acabaram inundando e destruindo sua casa. Sua busca por raízes continuou, mas só encontrou anos depois.
 Essa foi uma mudança profunda. E não se trata simplesmente de encontrar uma casa ou um emprego. A mudança foi a mudança na lógica de seu viver. Seu João e dona Raimunda começaram a viver parte de seu tempo em uma ilha no Pará, onde pescavam, faziam roça. A lógica não era mais a de explorar a floresta, a lógica era viver na floresta, com a floresta, sem a destruir. Uma conexão com o rio Xingu e a terra se estabeleceu. Nunca mais sua família ou ele próprio passariam fome, o rio e a terra se encarregava de os alimentar, desde que a respeitasse.
 Mas mais uma ironia esperava por seu João. Uma nova barragem, uma nova hidrelétrica estava por vir para destruir sua tão sonhada casa.
 Agora não era mais ele o barrageiro, nunca mais trabalharia numa barragem, mas outros, sim. Um dia lhe foi comunicado que sua ilha seria inundada devido à obra de Belo Monte. Não queria sair dali. Mas, se o tivesse
que fazer, que lhe dessem uma indenização adequada, pensou ele. Aqueles que chegaram para avaliar os bens da casa, a consideraram uma “casa de pobre”, não valia nada na lógica deles. Não entendiam que para seu João e dona Raimunda, os objetos tão essenciais para um mundo capitalista não lhes dizia absolutamente nada. Tudo o que precisavam vinha do rio. Eram ricos a sua maneira. Eram ricos, e com a perda do pedaço de ilha que lhes cabia, ficaram pobres. Literalmente pobres. Seu João acreditou que seria indenizado corretamente, para reconstruir sua vida novamente. Mais uma vez, foi enganado. Quando chegou na reunião com a Norte Energia, lhe comunicaram que ganharia 23 mil reais pela ilha. Esse valor não lhe daria futuro, viraria pó em pouquíssimo tempo.
 Sem saída, quis matar. Percebeu que tinha perdido tudo e agora estava velho demais para reconstruir toda uma vida. Sua força de trabalho minguou com a idade e o cansaço. Perdeu. Quis matar, as pernas falharam. Ficou doente. Hoje não sai de casa. Grita de ódio, ódio de injustiça. Convida a mulher e as filhas para voltarem para ilha perdida. Se não podem mais viver ali, quer se matar e matar toda a família. Quer se sacrificar e sacrificar toda a família na ilha onde teve sua verdadeira e única casa. Quer morrer ali porque já se sente morto. O pesadelo segue assombrando seus dias e suas noites.”

RAIMUNDA
 “Raimunda é descendente de negros e de índios, mas diz que se identifica mais com os negros. Os ensinamentos de seu pai lhe conferem um lugar no mundo, apesar de ser um lugar que lhe falta. Não que não tenha encontrado seu lugar no mundo. Encontrou e depois perdeu. Sua ilha e sua casa de palafita lhe foram tiradas, a mesma casa de seu João.
 Raimunda diz que o rio Xingu era seu amigo, seu supermercado, seu cartão de crédito. Sente uma conexão com o rio que é difícil para alguém que vive na cidade entender. Ela vive do rio, com o rio, no rio. Vê os peixes que pescava com João morrerem sozinhos com a contaminação que o rio sofreu com a construção da barragem de Belo Monte. Fica triste. Mas não cai. Mulher forte como poucas, se segura nos ensinamentos de seu pai, um descendente de escravos. Conta que o avô era “escravo de ficar preso em correntes”. Seu pai lhe transmitiu a força dos que já passaram por tudo de pior que o ser humano pode fazer com o outro. Isso não quer dizer que não se abale. Se abala, sofre. Não entende a maldade e a destruição que o ser humano faz com a própria espécie. Mas, de alguma forma, sobrevive, como uma fênix. Na mitologia de Raimunda, não se fala em Fênixes, se fala de plantas, e, para ela, ela, Raimunda, é uma pindova: uma palmeira que sempre
renasce, em camadas. Quando se pensa que a pindova morreu, ela sempre surpreende, tem uma camada viva.
 Raimunda encontrou Sofia em um encontro de mulheres em Belém do Pará. Nunca tinha visto uma boneca negra e precisou tê-la. Sofia é a infância que não teve. É a boneca que não teve na infância de quem trabalhou “desde sempre”. É negra como o pai, que lhe ensinou o valor da liberdade que nunca tiveram. Raimunda diz que a escravidão só mudou de jeito: ela continua ali. A escravidão, para ela, é o que a hidrelétrica de Belo Monte pode fazer com as pessoas impunimente. A boneca Sofia é a representação do traço que salva Raimunda da destruição, é o que lhe faz pindova. É a transmissão do pai, a transmissão da liberdade enquanto valor. Raimunda perdeu sua ilha, o rio, mas não perdeu o ensinamento de seu pai.”

A CASA DA CIDADE
 “Raimunda e João tinham a casa da ilha e a casa na cidade de Altamira. Passavam parte do tempo na cidade para vender o excedente do rio. O mesmo que ocorreu na casa da ilha ocorreu com a casa da cidade: foram expulsos com uma indenização “sem negociações”. O mesmo não, porque a casa da ilha foi incendiada, sem nenhuma justificativa, pela Norte Energia. Ligaram para que Raimunda tirasse os “resíduos” da casa num dia. Os “resíduos” eram seus pertences pessoais, domésticos. Quando chegou, no dia combinado, sua casa estava em chamas. Perdeu o chão, não conseguia acreditar que seu lar, além de perdido, estava ardendo. Nenhuma das outras casas da ilha foi incendiada, somente a sua.
 Na cidade, começaram a construir uma nova casa com esse dinheiro, na periferia de Altamira. Raimunda se recusou a morar nas casas pré-fabricadas construídas pela Norte Energia. Casas que depois de dois meses de construção já apresentam rachaduras aparentes. Queria uma casa totalmente nova, que não podia se parecer em nada com a anterior. Em um dos dois quartos, Raimunda e João colocaram todos os objetos que conseguiram salvar da casa da ilha. Virou um quarto-cemitério da ilha, um quarto-museu. Nenhum desses objetos fazem sentido na cidade. São objetos perdidos, sem função. Objetos que ocupam um terço da casa de Raimunda e de João. Objetos que mostram o tamanho da dor de perder não somente duas casas, mas seu meio de vida: de ricos moradores da floresta, passaram a ser pobres da periferia.”
Raimunda e a boneca Sofia
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Raimunda e a boneca Sofia
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João e suas lembranças de pescador.
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João e suas lembranças de pescador.
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O quarto-museu-cemitério de Raimunda e João
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Os olhos cegos de João
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Antônia Melo
 “Quando conheci Antônia, ela tinha uma semana para deixar sua casa. Não escolheu sair, não colocou placa de “vende-se” na casa. A casa para Antônia é mais que uma casa, tem raízes, é o seu lar. Ela fala da casa como se essa fosse uma árvore. A casa tem uma pequena floresta em seu interior. As plantas e árvores são tão importantes quanto qualquer peça da casa. Ela mostra cada árvore em seu pátio. Ama todas elas. Tem um pátio na frente e um atrás da casa. O de trás é selvagem, as plantas tomam conta das paredes e do chão. Tomam, não, tomavam. É um ex-pátio. As paredes que davam contorno a esse pátio eram as casas dos vizinhos. As casas dos vizinhos foram derrubadas. Só sobrou um vizinho. O pátio de Antônia ficou exposto. Dá pra rua, ou o que antes era uma rua. A rua também foi destruída. É a última casa da região que será destruída. 250 pessoas já se foram. Antônia resiste.
 Há um barulho ininterrupto de casas, ruas, árvores sendo derrubadas. Não vai sobrar nada. A geografia já foi destruída. O que restou é entulho. Há um cálculo que diz quem deve sair de sua casa e quem pode ficar. Um cálculo que diz até onde vai inundar e onde não vai. “Quem garante?” Pergunta Antônia onde vai terminar a inundação. A ela, parece arbitrário os cálculos. O vizinho do lado “bom”, que não saiu ainda, joga seu lixo no ex-pátio de Antônia, como que anunciando que a casa de Antônia não é mais uma casa. O lixo sinaliza uma morte prematura.
 Cravada de dor, ela quer aproveitar o que resta do seu tempo na casa. Antônia diz que não terá outra casa, mesmo quando se mudar para outra casa, essa não será sua casa de verdade. A casa que vai afundar é a sua casa de verdade. A próxima será um lugar para morar, mas um lugar sem raízes. A casa de Antônia tem raízes, tem uma história: foi nela que criou os filhos e os netos. Suas memórias estão nas paredes da casa, em suas plantas e árvores. Cada coisinha que tem na casa tem um significado. A casa foi plantada por Antônia. A casa é viva. Mesmo quando não existir mais, essa casa continuará sendo a sua casa. “Aqui eu era feliz. Ajudei a construir isso aqui. É diferente de ter comprado uma casa pronta.” A casa de Antônia é a Antônia.
 Antônia fala da saída da casa como se ela fosse uma planta. Ela própria vai ser arrancada da casa. A casa de dona Antônia, e a de seus vizinhos, será alagada. A hidrelétrica de Belo Monte vai gerar o alagamento de grande parte da cidade de Altamira. Nada ali vai existir mais, vai virar água, vai fazer parte do rio. A cidade está desconfigurada. Para Antônia, o que ela vai perder com a casa, não será somente a casa, ela diz que sua casa é uma casa expandida. Com a perda da casa, perde suas memórias, perde o rio Xingu, perde a natureza. A geografia que conhece não existirá mais. As ilhas e a vegetação que conhece também ficará, literalmente, abaixo d’água.
 “Quando as plantas são arrancadas para replantar, é para a vida se multiplicar. Ser arrancado (expulso de casa), é arrancar para tentar apagar a memória e acabar com a vida. É colocar cimento em cima. É vida apagada para sempre. Tira a raíz da pessoa. Isso é Belo Monte: exterminar a identidade e a cultura. Belo Monte é um projeto de destruir e aniquilar a memória. Querem destruir a minha memória para que eu nem exista.”
 Antônia diz que é teimosa, que vai cultivar a memória. Mas, mesmo assim, não será mais a mesma, terá uma lacuna. Ao tirarem sua casa, tiraram seu projeto de vida e seu futuro, que era continuar cultivando a casa.
 A dor de terem criado a hidrelétrica de Belo Monte se materializou, para Antônia, em problema de coração. Quase morreu. Teve que ir para São Paulo fazer tratamento. De coração partido, sobreviveu. Mas nunca mais foi a mesma. Depois disso teve que fazer uma jornada de resgate memória. Teve que buscar suas raízes mais profundas. Buscou a casa onde seu pai nasceu, no Piauí. De lá trouxe consigo uma pedra da casa do pai e sementes de buriti, sementes de árvores plantadas por ele. Depois foi ao Ceará, onde sua mãe nasceu. De lá trouxe sementes de manga.
  Antônia diz que Belo Monte tenta destruir as memórias. É uma obra de destruição, um crime. Por isso teve de buscar suas origens, na tentativa de
buscar os lugares que a constituíram. Dona Antônia vai plantar as sementes de seus antepassados da nova casa. Ainda não sabe onde essa nova casa vai ser, sente-se insegura de comprar uma nova casa com o dinheiro da indenização. Tem medo que os cálculos da usina esteja errados e o alagamento seja maior e inunde a nova casa. Tem medo de morar longe do centro, onde não tem nada. Altamira é uma cidade perigosa e nem todo bairro tem esgoto e água encanada.
 O que é uma casa? Para Antônia, “a casa tem raízes bem grandes, bem seguras, alicerçadas. A casa protege do vento, do trovão. Os filhos vêm e vão, a casa fica. A casa é embelezada pela natureza.”
 Açaizeiro – é sua árvore preferida. Traz alimento e beleza para a casa. Vem como lembrança de infância, como o suco mais doce. Vem como lembrança das festas juninas, onde os galhos do açaizeiro eram cortados para embelezar e festa. O açaizeiro de dona Antônia simboliza a vida, a segurança, o alto astral, a grandeza. Diz que é por isso que os pássaros são atraídos pela árvore.
 “Eu luto contra esse modelo (Belo Monte) de destruição e morte”. A hidrelétrica de Belo Monte é “crime de lesa pátria, crime contra a humanidade. É um modelo de morte.” “Não posso desistir, vou continuar resistindo contra a destruição. Täo destruindo tudo: os peixes, os bichos, as casas, as árvores. Isso dá forças para continuar sendo a resistência. Belo Monte é um projeto com ilegalidades, é criminoso”.
 Antônia busca força porque é aquela que a população busca quando precisa de ajuda, é a referência para aqueles que se sentem violados em seus direitos. Era em sua casa-árvore que buscavam forças – em suas raízes invisíveis. A perda da casa de Antônia é uma perda de um lugar simbólico da resistência contra a hidrelétrica de Belo Monte.
 O pátio de dona Antônia é a representação do que está acontecendo em Altamira. Era um pátio-floresta, pátio-bosque, um pedacinho de floresta no espaço de um pátio. Hoje está devastado. Com a poeira da destruição das outras casas e o lixo que os vizinhos jogam ali por entenderem que ali não é mais casa de ninguém, antecipam o assassinato da casa. O pátio já não é mais um pátio, é “inseguro”. A devastação do pátio-floresta é uma fração mínima da devastação da floresta amazônica que está acontecendo devido à hidrelétrica de Belo Monte.”
  A história de Antônia Melo também é contada no texto: “Do apagamento à inscrição museal na web: o estudo de caso do Museu das Memórias (In)Possíveis", de autoria de Priscila Chagas Oliveira e Maíra Brum Rieck, que você tem acesso neste link.
A pedra da casa do pai de Antônia.
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O ex-quintal de Antônia.
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O ex-quintal de Antônia.
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Sementes de manga que Antônia buscou na casa da mãe no Ceará, e sementes de buriti da casa de seu pai no Piauí
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Sementes de manga que Antônia buscou na casa da mãe no Ceará, e sementes de buriti da casa de seu pai no Piauí
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A casa de Antônia e a destruição ao redor.
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A casa de Antônia e a destruição ao redor.
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José Alexandre, Fifa

 “José Alexandre, ou Fifa, como é chamado, vive com sua família em uma pequena ilha às margens do Xingu: a Ilha da Fazenda. Conheci Fifa e sua família na canoada Bye Bye Xingu promovida pelo Instituto Socioambiental em setembro de 2015. Essa canoada tinha como objetivo mostrar em ato os horrores da construção da hidrelétrica de Belo Monte. Nesta experiência, os participantes remaram em torno de 100km de extensão e tiveram como guias indígenas e ribeirinhos da região.
  No primeiro dia de canoada, pudemos ver a extensão do rio que seria alagada pela hidrelétrica, uma experiência muito terrível, uma vez que toda aquela beleza natural seria completamente destruída. Por essa razão, nesse primeiro dia, pudemos ver cenas insólitas de queimadas de grandes porções de território de mata fechada, ver árvores gigantescas queimando de cima a baixo e, ao mesmo tempo, pessoas se divertindo tomando banho de rio e
bebendo cerveja, como se a floresta não estivesse queimando logo atrás delas. No final do primeiro dia, chegamos à barragem e tivemos que atravessá-la, nossas canoas tiveram que ser içadas para o outro lado. O rio rasgado ao meio por concreto. Seus habitantes agora teriam sua estrada hídrica privatizada. Não podiam mais ir e vir no seu próprio rio.
 Apesar de estarmos vivendo esse horror, o horror que cercava a ilha da Fazenda (e também toda a Volta Grande do Xingu) ainda era maior: Belo Sun, a mineradora canadense que estava tentando começar o processo de mineração exatamente em frente à ilha de Fifa, onde sua comunidade ribeirinha habita.
 A família de Fifa não precisará sair de sua casa: sua ilha não será afogada pela hidrelétrica de Belo Monte, está no lado da barragem no qual o rio vai secar. No entanto, seus peixes já começaram a fugir pela poluição da água ou morreram. A água do rio não pode mais ser bebida. A vida já começou a mudar. Mudar pra pior.
 A fragilidade que sentimos quando colocamos os pés na ilha de Fifa é incomensurável. Um lugar especial, onde as pessoas vivem sem destruir a floresta. A ilha da família de José Alexandre é um pequeno vilarejo, onde todos vivem do rio e do que plantam. Fomos recebidos com placas que diziam “Bem Vindo”. A família de Fifa - sua mulher e filhos - o esperavam com olhos de orgulho do homem que guiava todos aqueles estrangeiros - brasileiros ou não - pelo Xingu.
 Fifa, como muitos, antes de ser ribeirinho trabalhou como garimpeiro. Como tantos, tinha o sonho de enriquecer. Como tantos, enriqueceu os donos das terras. Fifa traz a memória desse outro tempo em um pingente que fez de uma pedra que encontrou. Pedra bruta que contém o ouro tal qual ele aparece na natureza. Essa não é mais sua vida, sua vida agora é com a família em sua ilha. Mas carrega consigo esse outro tempo. Um tempo que pode retornar em breve com outros homens que um dia foi ele mesmo.”
Fifa e sua família na ilha da Fazenda
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A pepita de ouro de Fifa e a lembrança de seus tempos no garimpo.
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A pepita de ouro de Fifa e a lembrança de seus tempos no garimpo.
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A pepita de ouro de Fifa e a lembrança de seus tempos no garimpo.
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Luciano Gouvea
 “Luciano Gouvea vem de uma família de agricultores de Vitória do Xingu. Os pais de Luciano ganharam o pedaço de terra do avô dele. O sonho da família era ter uma casa de alvenaria. Com a terra doada, puderam vender a casa de palha que moravam e, junto com o dinheiro da venda de suas 40 cabeças de gado, puderam comprar o material da futura casa. A casa foi construída ao longo de anos. A própria família a construiu. Luciano se orgulha disso, como se a casa própria ficasse mais própria quando aqueles que ali moram a constroem com suas próprias mãos.
 Um dia sua família foi avisada de que parte de suas terras teria que ser “desapropriada” em função da construção da hidrelétrica de Belo Monte. Foram avisados. Pessoas totalmente estranhas chegaram em sua casa – cheios de autoridade – e lhes comunicaram que sua casa e suas terras não
lhes pertenciam mais, que teriam que ser vendidas para o Estado. Assim, um decreto que chega do nada por pessoas completamente estranhas.
 Essas mesmas pessoas, então, chegaram com tabelas de preços e disseram quanto valia o quê dentro da casa de Luciano. Não teve negociações. A vida privada foi violada. Os objetos afetivos, os lugares, as lembranças de cada objeto, de cada árvore, viraram números. Números sem negociações. Aqui, não é o proprietário quem decide o valor do que está sendo vendido. Para Luciano, quando os violadores chegaram, foi como se a casa dele tivesse deixado de ser dele. A casa, como um corpo vivo, foi violada.
 Luciano diz que não queriam vender suas terras, queriam continuar existindo ali. Para essa família, a terra e a casa tinham um valor afetivo. A família e a terra onde plantavam cacau e criavam gado eram indissociáveis. Eles eram a casa e a terra.
 Quando os invasores chegaram, em um primeiro momento, a família lhes recusou a entrada. Queriam inventariar as terras, comunicar às famílias quanto valiam suas vidas, seu futuro. A família, ainda acreditando na justiça, dizia a si mesma que não deixaria que isso ocorresse, não permitiria a invasão. Pensavam que a casa e a terra ainda eram deles. Aos poucos, foram vendo os abusos cometidos contra os vizinhos, também obrigados a se desfazerem de vidas duramente construídas. Ficaram com medo, acharam que iam perder tudo, que iam ser indenizados com valores muito baixos. Não tiveram mais escolha, a resistência deles seria duramente punida. “Permitiram”, então, a invasão. O cadastro foi feito e o valor foi fixado, não houve negociações.
 Primeiro disseram que a terra não seria atingida integralmente, depois, avisaram que seria atingida 99%. Para Luciano, depois do cadastro, a sensação era que a casa e as terras não lhe pertenciam mais, mesmo ainda morando ali dentro. Explosões de dinamite ocorriam das 6hs da manhã até às 3hs da madrugada do dia seguinte. O mundo que conheciam estava se desfazendo, tudo estava literalmente indo pelos ares. Luciano lembra que as explosões eram tão fortes que um dia a prateleira da casa da avó caiu com o estrondo. A casa estava caindo antes mesmo de saírem das terras. A estrada que dava acesso à casa foi bloqueada, não podiam mais sair ou entrar. Uma casa sem caminhos possíveis. Estavam literalmente sem saída. A avó de Luciano não suportou, entrou em depressão e foi buscar ajuda em Teresina (Pará).
 A mudança: a indenização veio em duas parcelas. Depois da primeira parcela, a família tem 30 dias para sair de casa. Só receberiam a segunda parcela quando já tivessem saído. Luciano fala com dor do dia da mudança. Não entende o descaso dos funcionários da empresa de mudança – empresa terceirizada pela Norte-Energia. Enquanto a família estava tentando suportar a dor de serem expulsos da terra que cultivaram, onde criaram a narrativa de suas vidas, criaram os filhos, os sonhos; os funcionários da empresa de mudança estavam impacientes para terminar logo aquela mudança e terminar o serviço do dia. Apressavam a família para ir logo e faziam descaso de seus pertences, dizendo que aquilo que estavam levando não valia nada.
 Constrangidos, humilhados, expulsos, acabaram não levando tudo o que gostariam para a nova casa. Assim como os objetos, os animais também sofreram na mudança. Luciano sofre ao lembrar que uma das vacas de sua família morreu simplesmente por não ter sido transportada adequadamente. Sofre ao pensar no sofrimento dela.
 Para não perderem tudo o que haviam construído, tiveram que se mudar para Placas, município que fica a 260km de Altamira (PA). Lá não conheciam ninguém, não tinham amigos. Perderam a vizinhança com o avô. A família ficou longe. Antes, Luciano via o avô todas as noites, depois, passou a vê-lo uma vez por semana, já que estavam a 10 km de distância. Luciano sente falta da vida antiga, sente-se sozinho, isolado, diz que agora só vem visita em sua casa por interesse, ninguém vem mais “a passeio”. Nas novas terras não encontraram água, tiveram que fazer poço, construir açude. A plantação de cacau foi perdida, e, para começá-la novamente, teriam que esperar 5 anos para obterem o retorno financeiro. Luciano sente falta do açaí e das castanhas que podia pegar a hora que quisesse, sente falta de poder se alimentar dos frutos de suas árvores.
 O que acontece com alguém que tem sua casa, sua vida, suas lembranças invadidas e arrancadas por alguém, um “ente”, uma instituição? Como continuar vivendo sem a ilusão necessária de que estamos num lugar minimamente protegido? Quais os efeitos, a longo prazo, que sofremos ao saber que o Estado não nos protege, mas nos viola? O que nos tornamos num entorno desses?”
A casa dos sonhos de Luciano.
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A casa dos sonhos de Luciano.
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Luciano sem sua casa.
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Luciano sem sua casa.
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Marizan e Valda

 “Marizan é da etnia indígena Juruna e nasceu em Paquiçamba, nas margens do rio Xingu. É casado com Valda com quem tem dois filhos. Valda foi viver com os Jurunas e é como juruna que cria seus filhos hoje. São pescadores e vivem da roça que cultivam. As terras em que vivem não será inundada por Belo Monte, mas se localizam na parte em que o rio vai secar. Não secará totalmente, mas vai diminuir consideravelmente o fluxo de água. Ninguém sabe calcular exatamente o quanto. Por não se encontrar na parte que inundará, o governo diz que eles não serão afetados pela hidrelétrica de Belo Monte. Nesse raciocínio governamental, nada será trabalhado com os jurunas ou qualquer outro povo ou pessoa que está fora da área de inundação.
 Ao contrário do pensamento governamental, a hidrelétrica já afetou as terras indígenas: a água está poluída, os indígenas não podem mais beber a água do Xingu sem ficar gravemente enfermos; e os peixes também já começaram a sumir. Muito possivelmente pela mesma razão: a contaminação da água. Segundo os indígenas, quando o rio secar, muitos dos peixes que
vivem nessa parte do rio não vão mais poder se reproduzir ou viver. Os indígenas são os primeiros a sentirem os impactos ambientais. Não poder pescar é grave para os jurunas, que vivem do rio, para o rio. Sem rio, esses “não afetados” pela barragem terão que abandonar as suas terras, terras que guardam os antepassados de centenas de anos.
 Foi o pai de Marizan quem o ensinou a pescar. Sua família de origem vive na mesma vila que o casal. Se alimentam do que plantam e do que pescam. Era assim até os peixes começarem a rarear. Como disse antes, a água do rio, que antes era consumida, transformou-se em veneno.
 O rio para eles não é somente uma água que passa ao redor da ilha onde vivem, o rio Xingu, para elas é a própria vida, é de onde se alimentam, é por onde passa a transmissão de gerações. Para Valda, o rio é amor, é vida, é o alimento, é saúde. Quando fala do rio, não encontra as palavras, passa a sensação de que o Xingu é a fonte da vida, como se sem ele o mundo se desmaterializasse. São pescadores, conhecem os peixes, as águas e sabem como navegá-las. É de uma relação profunda com o rio que se trata, e ver o rio contaminado de onde os peixes fogem é sentido para eles como a própria morte. É uma perda profunda, uma dor profunda. O rio contaminado é uma perda da vida em si e de um mundo inteiro. É uma violação sem volta.
 Eles vêm novas pessoas pescando nos seus rios, “gente de fora”, gente que veio junto com a obra de Belo Monte. Sentem-se invadidos, violados. A terra e o rio não são quaisquer, não pertencem a qualquer um que chega. A terra é deles, é onde enterram seus mortos. Valda tem certeza que o “homem branco” – aquele que não é indígena – vai pagar caro pela destruição do rio e da natureza. Diz que os mortos não vão embora da terra depois da morte, mas ficam ali. E que ali eles vão permanecer, independente do que os vivos façam com o lugar. A tristeza da perda é evidente em seus olhos. Não entende o porquê de tanta destruição. É uma mulher da terra e do rio. Ela vive na terra, da terra. Não a destrói. Não precisa de nada além do que a natureza lhe dá. Vive no contrafluxo do mundo capitalista.”
Marizan e Valda em ilha do Xingu.
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Marizan e Valda em ilha do Xingu.
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Marizan e Valda em ilha do Xingu.
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Otavio das Chagas
AS CICATRIZES DE OTÁVIO
 “Quando conheci Otávio, ele morava com sua família numa casa nova no bairro novo construída pela Norte Energia para reassentar os removidos de Belo Monte. Na casa nova, Otávio e a família passavam fome. Eram 8hs da manhã e ele, a mulher, o filho mais velho, a nora e os dois filhos menores comeriam pela primeira vez no dia às 17hs, quando o único filho que conseguiu emprego chegaria em casa com a diária do trabalho que compraria a comida de todos. Enquanto passavam fome, um carro de som passava pelo bairro fazendo propaganda da Norte Energia... “Norte Energia: energia limpa e saudável...” Me senti num filme de ficção científica de fim de mundo.
 Era justamente essa a sensação de Otávio: fim do mundo. O mundo que conheceu não existe mais. Não existe mais para ele, não existe mais para os expulsos pela hidrelétrica de Belo Monte. Ele diz que não se preocupa com ele próprio, diz que está velho e vai morrer logo, se preocupa com os filhos que são jovens e ainda tem muita vida pela frente. Otávio espera desesperadamente a morte. Para ele, a vida na cidade já é a morte. A vida de
verdade – de verdade para ele – acabou. Sua dor é que os filhos terão que viver essa vida de deserto da cidade por longos anos. Para Otávio, a morte é a libertação. Não tem mais nenhuma esperança. A família vive como estrangeiros dentro da casa própria. De própria não tem nada, não é mais a casa da ilha. É como se as paredes da casa não lhe pertencessem. As paredes só servem para protegê-las do mundo lá fora, mundo de concreto hostil.
 O mundo de Otávio acabou: de toda a ilha onde vivia, na sua ilha de floresta amazônica, o que restou foram duas plantas plantadas não mais na terra, mas em minúsculos potes. O mundo de Otávio acabou.
 Otávio tem um único filho, entre os nove que teve com Maria, que vai na escola – o único da família de analfabetos. Seus irmãos menores, que estavam na casa naquele dia em que os encontrei, têm medo de pegar o ônibus que os levaria para a escola. A família não consegue se adaptar à cidade. A escola não é um valor para eles, ninguém da família jamais estudou antes desse filho de Otávio. A escola não está na lógica ou costume da família. E, pegar ônibus, andar na cidade é algo terrorífico para uma criança que se criou numa ilha.
 Como muitos, Otávio e sua família também perderam sua ilha e seu modo de vida. Como muitos, um dia chegaram na sua casa e disseram que não poderia mais morar ali, sua ilha seria inundada pela hidrelétrica de Belo Monte.
 Otávio e sua família eram ribeirinhos. Ser ribeirinho é o único modo de existir que conhecem. Viviam da terra e do rio. Nada restou para contarem da vida que viviam antes. Tudo foi destruído. Não há fotografias, não há nada escrito sobre a vida que viveram antes, não há qualquer registro da existência já apagada que viveram lá: o que restou foram cicatrizes de um tempo perdido. A única prova de que viveram a vida na ilha são as cicatrizes. Sem elas, talvez nem certeza hoje teriam de que a ilha não fora um sonho. As cicatrizes contam histórias de cercas que não existem mais, de dores de outro tempo, de queimaduras. As cicatrizes do corpo não se apagaram. Ainda... Permitem que a sanidade persista através da memória que vem do corpo.
 A escrita nunca foi importante para Otávio, a palavra dada e falada valia. A palavra de alguém era o valor de alguém. Por essa razão que seu Otávio acreditou nos funcionários da Norte Energia e assinou um documento em branco quando estava negociando sua casa. Ninguém jamais conseguiu encontrar esse documento para saber o que a empresa escreveu acima da assinatura de Otávio. Só sabemos que recebeu 12 mil reais por tudo o que tinha. Obviamente o dinheiro evaporou na cidade muito rapidamente. Além da ilha, Otávio descobriu que a palavra de alguém não valia nada. Otávio espera que a morte venha rápido lhe tirar o sofrimento da vida de deserto da cidade. Vida que, descobriu com Belo Monte, não vale nada.”
As cicatrizes de Otavio e Maria: ultimas lembranças de uma ilha afogada.
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As cicatrizes de Otavio e Maria: ultimas lembranças de uma ilha afogada.
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De uma ilha para dois vasos de plantas.
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As cicatrizes de Otavio e Maria: ultimas lembranças de uma ilha afogada.
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REFERÊNCIAS

Reportagem: “Belo Monte, empreiteiras e espelhinhos: Como a mistura explosiva entre o público e o privado, entre o Estado brasileiro e as grandes construtoras, ergueu um monumento à violência, à beira do Xingu, na Amazônia ”

Coleção Belo Monte no Acervo do Museu das Memórias (In)Possíveis

Reportagem: “Vídeo mostra a última canoada antes do barramento do Rio Xingu por Belo Monte ”
Esta exposição foi fruto do encontro "Bye Bye Xingu" realizado pelo Instituto socioambiental (ISA) em 2015.

Conheça o ISA: https://ifnotusthenwho.me/

https://www.museudeimagens.com.br/india-tuira/

Filme “Eu + 1: Uma jornada de saúde mental na Amazônia”
FICHA TÉCNICA

Curadoria
André Oliveira Costa
Denise da Silveira
Edson Luiz Andre de Sousa
Eliana Dable de Mello
Heloísa Helena Salvatti Paim
Jaime Betts
Maíra Brum Rieck
Pedro Isaias Lucas
Priscila Chagas Oliveira
Otávio Augusto Winck Nunes

Ilustração
Jack Kaminski

Fotografia
Lilo Clareto (In Memoriam)



Textos
Maíra Brum Rieck

Projeto Gráfico
Raquel Alberti

Programação
Rafael Nascimento

Interlocutores
João Pereira da Silva
Raimunda Gomes da Silva
Antônia Melo
José Alexandre Menezes da Silva (Fifa)
Luciano Gouvea
Marizan Felix Juruna
Valdelena Correa Cardoso (Valda)
Otávio das Chagas

ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
Rua Faria Santos, 258 – Petrópolis – Porto Alegre/RS – CEP 90670-150
Fone: (51) 3333.2140 ou (51) 3333.7922
www.appoa.org.br

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