Rosangela Amaral de Almeida enviou seu diário escrito durante a pandemia de covid-19 para o projeto Testemunhos da Pandemia, realizado pelo Museu das Memórias (In)Possíveis em parceria com o coletivo Testemunhos da Pandemia. Rosangela escreveu de março de 2020 a dezembro de 2021. Seu relato é profundo, difícil, verdadeiro. Nos lembra a dureza, a tristeza, a incompreensão do mundo naquele período especialmente difícil no Brasil por estarmos sob o poder de um governo genocida.
Estes registros da Rosangela chegam até nós como uma ampulheta viva, onde cada grão de areia guarda um registro de memória deste tempo traumático. Um diário que faz pensar na obstinação de algumas performances artísticas que tentam capturar a passagem do tempo com o instrumento mais precioso que temos em nossas mãos: a linguagem. Um arquivo vivo dando forma a tantas dores mas também mostrando as estratégias que foi preciso inventar para sobreviver a tudo isto.
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De acordo com Rosangela:
“A pandemia pelo covid-19, no Brasil, estourou, quando voltava das férias. Na primeira semana de trabalho tomei a decisão de virtualizar meu consultório particular. Mantive meu plantão semanal de 20 horas no Plantão de Emergência em Saúde Mental do Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul, onde sou psiquiatra concursada pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre há 23 anos.
O começo disso tudo foi muito difícil, porque não imaginávamos o quão difícil seria, nem como estaríamos desprotegidos, nem como conseguiríamos seguir trabalhando com tantas perdas, com tanta precariedade e com poucas esperanças. O medo de adoecer, de morrer, de perder pessoas próximas e queridas estava junto. Não tínhamos vacinas, nem testes. Nos primeiros 10 meses, usamos nosso corpo para trabalhar. Cuidamos do nosso corpo para tratar de outros. Assim comecei a perguntar-me sobre o papel dos corpos no processo. Estar de plantão foi um risco e um lugar importante. Risco de vida. Lugar do ideal, do SUS (Sistema Único de Saúde), da boa coisa pública, do bom cuidado. Também o simbolismo de estar de plantão é como ser farol, continente, apoio, atendimento. Comecei a registrar algumas falas de pacientes do consultório e dos atendidos na emergência e fui tecendo relações com o que acontecia no país, nas políticas públicas de saúde, na própria política e usando manifestações artísticas como ilustração, especialmente músicas de nosso cancioneiro e poesia.
Fui lembrando de artistas, que ajudaram a mim e tantos da minha geração a passar por traumas e sofrimentos. Eles souberam nos dar sua dor em versos de esperança, de delicadeza, de garra. Tanto que cantei Sabiá para meu filho adormecer. Comecei a escrever estas crônicas em março, nos intervalos dos plantões, e publiquei no facebook. Iniciei em março de 2020 e encerrei estes textos em 31.12.2021. Já tinha alguma experimentação com arte têxtil, especialmente bordado, crochê e costura e resolvi fazer, também, uma crônica têxtil. Assim fiz trabalhos para Festival de Arte Têxtil Fibra de Artista (II e III), exposições do Chama que eu Bordo, Clube do Choro, Projeto Ó de Casa, Queimadas, Piradas no Ponto, dois livros têxteis e bordados ofertados a amigos. Desta forma procurei, pelo conforto que o têxtil proporciona, propor uma trama de cores, de alegria, de carinho, de cuidado. Recebi retornos generosos, que me diziam que os textos e os trabalhos ajudavam a pensar, a entender, a se alegrar e ter esperanças. Acredito que escrever e tecer foi meu jeito parcial de lidar com o sofrimento, a solidão e o medo. E de me sentir melhor e confiante a cada fim de plantão.
Entrego estes escritos e estas imagens ao Museu das Memórias (In)Possíveis como testemunho de vivência de quem trabalhou de dentro da pandemia pelo covid-19, buscando na Arte um estandarte de alegria para dias tão difíceis. Também, pelo atendimento no SUS, podemos dar visibilidade a pessoas que não aparecem nas estatísticas, pois o SUS, muitas vezes, chega em pessoas onde a água não chegou, nem a luz, ou o saneamento. Dentro do SUS, um dos meus lugares de ideal, é possível que muita gente possa contar uma história. Todos contam. Eu conto esta.”
Acesse a Coleção Testemunhos da Pandemia, no acervo do Museu, e conheça as Crônicas e produções têxteis de plantão: reflexões e ilustrações na pandemia pelo covid- 19 em Porto Alegre – RS – Brasil no período de março de 2020 a dezembro de 2021.