“ … Da língua cortada
digo tudo
amasso o silêncio e
no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior…”
Conceição Evaristo
Não saímos impunes ao conhecer Nilce Azevedo Cardoso. Sua fala, sua história, seu testemunho deixam marcas profundas em quem se dispõe a escutá-la. Palavras e imagens que chegam como o grito do grito. Sempre buscou dar forma, cor, espessura para as experiências extremas que a vida lhe exigiu. Seu corpo frágil – literalmente quebrado por agentes de Estado na época da ditadura – é um mapa de feridas não cicatrizáveis que contam não somente sua história individual, mas a história do Brasil, da violência que remonta à destruição primeiro dos corpos indígenas, depois dos corpos negros. Quem não segue as leis (sempre injustas) dos detentores do poder acaba com o corpo aniquilado, despedaçado, torturado, numa espécie de espetacularização pedagógica que nos diz que se você ficar bem quietinho, não vai apanhar, não vai sofrer. Nilce não era alguém que se calava, tinha a língua solta sempre atenta aos princípios que deveriam nos orientar na vida: a liberdade, a solidariedade, a justiça. Nilce sofria com o sofrimento do outro. Acreditava em mudar o mundo e por isso acabou deixando sua vida de então para trás, mudou de nome e foi para a clandestinidade, na época da ditadura civil-militar brasileira. Nilce se transformou em operária e passou a viver a pobreza extrema com outras pessoas que viviam a mesma penúria. Queria conversar, queria ensinar, explicar o porquê das pessoas estarem naquela situação. Queria mostrar que seus destinos poderiam ou deveriam ser outro.
Nilce foi sequestrada em uma parada de ônibus e torturada por quase 6 meses. Nos deixou muitos relatos desta travessia difícil acreditando sempre no valor da palavra como transmissão e apostando no valor do testemunho como responsabilidade. Diante do que viveu tinha um dever de memória. Escutá-la beira quase ao insuportável, ao mesmo tempo em que nos obrigamos a isso por uma responsabilidade, por uma ética. Se ela viveu o insuportável, o mínimo que devemos a quem lutou por nossa frágil democracia é a escuta e o reconhecimento.
Nilce participou do projeto Clínicas do Testemunho, um projeto de reparação psíquica a afetados pela ditadura civil-militar realizado pelo Instituto APPOA em parceria com a Sigmund Freud Associação Psicanalítica. Nilce nos mostrou o poder e a força de um testemunho, demarcando também o lugar da psicanálise frente à violência de estado e tempos onde a democracia está em colapso. A psicanálise tem o compromisso ético de se posicionar frente ao horror, à destruição do sujeito e dos laços sociais. E a isso se dedicou o Projeto Clínicas do Testemunho.
Nilce era psicopedagoga, ativista, mãe, avó, mulher, feminista, amiga, cidadã. Mas acima de tudo, era alguém que desejava e lutava por um mundo melhor para todos. Nilce nunca deixou de sonhar, nunca teve seu sonho sequestrado.
Nilce nos deixou no dia 21 de fevereiro de 2022. E com ela se foi um pedaço da história de nosso país. Mas que fica inscrito na experiência e na memória dos que a conheceram, dos que a escutaram e, principalmente, dos que com ela conviveram. A estes, e especialmente a sua família e a seus amigos, enviamos nossos sentimentos e nos solidarizamos com sua dor.
Que não a esqueçamos, que essa homenagem nos faça lembrar sempre e sempre do ponto onde não se pode ceder.
APPOA
Instituto APPOA.