

{"id":521,"date":"2022-02-24T10:40:05","date_gmt":"2022-02-24T13:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/?post_type=acontecimento&#038;p=521"},"modified":"2022-02-25T00:59:51","modified_gmt":"2022-02-25T03:59:51","slug":"em-memoria-de-nilce-azevedo-cardoso","status":"publish","type":"acontecimento","link":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/acontecimento\/em-memoria-de-nilce-azevedo-cardoso\/","title":{"rendered":"Em Mem\u00f3ria de Nilce Azevedo Cardoso"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c &#8230; Da l\u00edngua cortada<\/p>\n\n\n\n<p>digo tudo<\/p>\n\n\n\n<p>amasso o sil\u00eancio e<\/p>\n\n\n\n<p>no farfalhar do meio som<\/p>\n\n\n\n<p>solto o grito do grito do grito<\/p>\n\n\n\n<p>e encontro a fala anterior&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Evaristo<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sa\u00edmos impunes ao conhecer Nilce Azevedo Cardoso. Sua fala, sua hist\u00f3ria, seu testemunho deixam marcas profundas em quem se disp\u00f5e a escut\u00e1-la. Palavras e imagens que chegam como o grito do grito. Sempre buscou dar forma, cor, espessura para as experi\u00eancias extremas que a vida lhe exigiu. Seu corpo fr\u00e1gil &#8211; literalmente quebrado por agentes de Estado na \u00e9poca da ditadura &#8211; \u00e9 um mapa de feridas n\u00e3o cicatriz\u00e1veis que contam n\u00e3o somente sua hist\u00f3ria individual, mas a hist\u00f3ria do Brasil, da viol\u00eancia que remonta \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o primeiro dos corpos ind\u00edgenas, depois dos corpos negros. Quem n\u00e3o segue as leis (sempre injustas) dos detentores do poder acaba com o corpo aniquilado, despeda\u00e7ado, torturado, numa esp\u00e9cie de espetaculariza\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica que nos diz que se voc\u00ea ficar bem quietinho, n\u00e3o vai apanhar, n\u00e3o vai sofrer. Nilce n\u00e3o era algu\u00e9m que se calava, tinha a l\u00edngua solta sempre atenta aos princ\u00edpios que deveriam nos orientar na vida: a liberdade, a solidariedade, a justi\u00e7a. Nilce sofria com o sofrimento do outro. Acreditava em mudar o mundo e por isso acabou deixando sua vida de ent\u00e3o para tr\u00e1s, mudou de nome e foi para a clandestinidade, na \u00e9poca da ditadura civil-militar brasileira. Nilce se transformou em oper\u00e1ria e passou a viver a pobreza extrema com outras pessoas que viviam a mesma pen\u00faria. Queria conversar, queria ensinar, explicar o porqu\u00ea das pessoas estarem naquela situa\u00e7\u00e3o. Queria mostrar que seus destinos poderiam ou deveriam ser outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nilce foi sequestrada em uma parada de \u00f4nibus e torturada por quase 6 meses. Nos deixou muitos relatos desta travessia dif\u00edcil acreditando sempre no valor da palavra como transmiss\u00e3o e apostando no valor do testemunho como responsabilidade. Diante do que viveu tinha um dever de mem\u00f3ria. Escut\u00e1-la beira quase ao insuport\u00e1vel, ao mesmo tempo em que nos obrigamos a isso por uma responsabilidade, por uma \u00e9tica. Se ela viveu o insuport\u00e1vel, o m\u00ednimo que devemos a quem lutou por nossa fr\u00e1gil democracia \u00e9 a escuta e o reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nilce participou do projeto Cl\u00ednicas do Testemunho, um projeto de repara\u00e7\u00e3o ps\u00edquica a afetados pela ditadura civil-militar realizado pelo Instituto APPOA em parceria com a Sigmund Freud Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica. Nilce nos mostrou o poder e a for\u00e7a de um testemunho, demarcando tamb\u00e9m o lugar da psican\u00e1lise frente \u00e0 viol\u00eancia de estado e tempos onde a democracia est\u00e1 em colapso. A psican\u00e1lise tem o compromisso \u00e9tico de se posicionar frente ao horror, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do sujeito e dos la\u00e7os sociais. E a isso se dedicou o Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nilce era psicopedagoga, ativista, m\u00e3e, av\u00f3, mulher, feminista, amiga, cidad\u00e3. Mas acima de tudo, era algu\u00e9m que desejava e lutava por um mundo melhor para todos. Nilce nunca deixou de sonhar, nunca teve seu sonho sequestrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nilce nos deixou no dia 21 de fevereiro de 2022. E com ela se foi um peda\u00e7o da hist\u00f3ria de nosso pa\u00eds. Mas que fica inscrito na experi\u00eancia e na mem\u00f3ria dos que a conheceram, dos que a escutaram e, principalmente, dos que com ela conviveram. A estes, e especialmente a sua fam\u00edlia e a seus amigos, enviamos nossos sentimentos e nos solidarizamos com sua dor.<\/p>\n\n\n\n<p>Que n\u00e3o a esque\u00e7amos, que essa homenagem nos fa\u00e7a lembrar sempre e sempre do ponto onde n\u00e3o se pode ceder.<\/p>\n\n\n\n<p>APPOA<\/p>\n\n\n\n<p>Instituto APPOA.<\/p>\n","protected":false},"template":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/acontecimento\/521"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/acontecimento"}],"about":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/acontecimento"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}