

{"id":1684,"date":"2025-09-27T09:13:10","date_gmt":"2025-09-27T12:13:10","guid":{"rendered":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/?post_type=acontecimento&#038;p=1684"},"modified":"2026-03-28T09:15:38","modified_gmt":"2026-03-28T12:15:38","slug":"dopinho-uma-memoria-a-venda","status":"publish","type":"acontecimento","link":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/acontecimento\/dopinho-uma-memoria-a-venda\/","title":{"rendered":"Dopinho: uma mem\u00f3ria \u00e0 venda"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por<\/em>\u00a0Ma\u00edra Brum Rieck<em>,<\/em>\u00a0Maria Luiza Castilhos<em>,<\/em>\u00a0Alexandre Costi Pandolfo<em>\u00a0and<\/em>\u00a0Barbara de Souza Conte<\/p>\n\n\n\n<p>Como se constr\u00f3i uma cidade? A mem\u00f3ria de uma cidade, o que a constitui? Pertencemos a ela? A mem\u00f3ria, a cidade, elas nos pertencem? Quais recorda\u00e7\u00f5es, folclores, mitos, hist\u00f3rias, narrativas constituem uma cidade, um pa\u00eds, um povo? E como lidamos com isso? Se formos mais espec\u00edficos: sobre a cidade de Porto Alegre, o que a tem constitu\u00eddo historicamente? Como tem se transformado? Tem se tornado o qu\u00ea? E seus cidad\u00e3os, como se relacionam com ela? Qual sua Hist\u00f3ria Oficial? Quais as hist\u00f3rias subterr\u00e2neas da nossa cidade? Aquelas que circulam nas bocas dos pequenos c\u00edrculos, clubes, fam\u00edlias, bolhas, mas que n\u00e3o chegam a constituir uma narrativa oficial. Conhecemos a nossa cidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Tais reflex\u00f5es iniciais sugerem algo que os estudiosos e as estudiosas do tema da mem\u00f3ria e das cidades j\u00e1 v\u00eam apontando h\u00e1 tempos: que a mem\u00f3ria e tamb\u00e9m as cidades, seus passados e futuros, est\u00e3o em disputa, sempre estiveram. Tais disputas (temporais, pol\u00edticas, historiogr\u00e1ficas e culturais), por um lado, levam-nos \u00e0 l\u00f3gica dos significados e dos monumentos agregada \u00e0s ideias de dura\u00e7\u00e3o, de estabilidade e mesmo de na\u00e7\u00e3o; por outro lado, dirigem-nos tamb\u00e9m \u00e0s mem\u00f3rias subterr\u00e2neas, encapsuladas pelos poderes vigentes, que nem sempre correm em sil\u00eancio pelo rio da hist\u00f3ria, e que normalmente afloram nos momentos de sobressaltos, crises e urg\u00eancias, ganhando corpo no corpo do espa\u00e7o p\u00fablico, com m\u00faltiplas reivindica\u00e7\u00f5es, nem sempre previs\u00edveis. \u00c9 nesse sentido que Michael Pollak apontava para a \u201csobreviv\u00eancia durante dezenas de anos, de lembran\u00e7as traumatizantes, lembran\u00e7as que esperam o momento prop\u00edcio para serem expressas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o muitas as mem\u00f3rias que correm nas ruas da nossa cidade, muitas delas apagadas, amorda\u00e7adas, esquecidas. Um desavisado pode passar pela rua Santo Ant\u00f4nio n\u00ba 600 em Porto Alegre e nem imaginar todos os horrores que ali se passaram durante a ditadura civil-empresarial militar imposta a partir de 1964. Torturas, assassinatos, estupros. Parece filme de terror. Mas n\u00e3o \u00e9 filme. Poder\u00edamos pensar que um&nbsp;<em>serial killer<\/em>&nbsp;como o dos filmes estadunidenses morou ali. N\u00e3o, n\u00e3o foi isso. Foram agentes do Estado que cometeram tais atrocidades. Mas n\u00e3o um Estado democr\u00e1tico, uma ditadura. A casa foi alugada por militares neste per\u00edodo terr\u00edvel de nossa hist\u00f3ria. Foi usada clandestinamente como laborat\u00f3rio de centro de tortura, sendo chamada de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.matinaljornalismo.com.br\/tags\/dopinho\/?ref=matinal.org\">Dopinho<\/a>\/Dopinha, em alus\u00e3o ao DOPS (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social), que atuava na repress\u00e3o naqueles anos de \u201cchumbo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um olhar mais atento poderia ver as marcas da disputa por mem\u00f3ria, nas picha\u00e7\u00f5es que a cidade faz em seus muros e que, frequentemente s\u00e3o desfeitas pelos propriet\u00e1rios, com novas pinturas \u2014 \u201cO que \u00e9 uma marca de tinta feita numa parede banhada de sangue?\u201d; \u201cA mem\u00f3ria, a verdade, justi\u00e7a, exige coragem\u201d; \u201cN\u00e3o \u00e0 anistia\u201d. A casa elegante de um bairro central da cidade seguidamente pichada revela a tentativa desesperada dos cidad\u00e3os de fazer mem\u00f3ria. H\u00e1 a\u00ed um qu\u00ea de ang\u00fastia por n\u00e3o se encontrar uma escuta. V\u00e2ndalos? A frase volta: \u201cO que \u00e9 uma marca de tinta em uma parede banhada de sangue?\u201d. Ent\u00e3o, nos perguntamos, quem s\u00e3o os v\u00e2ndalos da (H)hist\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos a questionar o pacto que se criou entre o sil\u00eancio dos torturadores e os locais que foram utilizados como centros de tortura, pacto este que mant\u00e9m um hiato em nossa hist\u00f3ria sobre os tempos sombrios da viol\u00eancia de Estado. Ao mesmo tempo, estamos a evidenciar o que ainda grita no exato endere\u00e7o supracitado, o que ali ainda pulsa e que, portanto, clama, apela para um trabalho psicanal\u00edtico e pol\u00edtico poss\u00edvel frente \u00e0 apar\u00eancia ordin\u00e1ria do passado, frente \u00e0 naturaliza\u00e7\u00e3o e ao silenciamento do que foi, ressaltando as feridas, as tens\u00f5es e as contradi\u00e7\u00f5es que exigem elabora\u00e7\u00f5es coletivas p\u00fablicas. Mas quantos outros endere\u00e7os de tortura ainda estamos por encontrar, apontar e mapear em Porto Alegre?<\/p>\n\n\n\n<p>O contraponto deste pacto \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de Estado para nomear e transformar locais de deten\u00e7\u00e3o e tortura em centros de Mem\u00f3ria. Recuperar a(s) H(h)ist\u00f3ria(s), transformar o sil\u00eancio em conhecimento do ocorrido nos tempos da ditadura, trazer as mem\u00f3rias subterr\u00e2neas da cidade e coloc\u00e1-las \u00e0 luz do dia. A psican\u00e1lise nos ensina que \u00e9 a inscri\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria que nos possibilita a n\u00e3o-repeti\u00e7\u00e3o dos traumas e horrores vividos. \u00c9 ela, a mem\u00f3ria, que nos possibilita um la\u00e7o civilizat\u00f3rio que n\u00e3o mata, n\u00e3o tortura, n\u00e3o estupra e n\u00e3o desaparece corpos. Lembrando que, no Brasil, temos enfrentado diversas formas de sonega\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, de produ\u00e7\u00e3o de desconhecimento dos fatos e amplos processos de desmem\u00f3ria. Segundo a pesquisadora Deborah Neves, inclusive no \u00e2mbito do tratamento do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural, \u201ca pr\u00e1tica do exerc\u00edcio do esquecimento \u00e9 constante\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim sendo, no dia 13 de setembro deste ano, na&nbsp;<em>Confer\u00eancia Livre de Direitos Humanos Ditadura Nunca Mais<\/em>&nbsp;\u2014 que ocorreu na Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio Grande do Sul \u2014, propusemos uma carta abaixo-assinado requerendo a compra desta casa (que se encontra \u00e0 venda) pelo poder p\u00fablico, atendendo \u00e0 necessidade de constru\u00e7\u00e3o de um Centro de Mem\u00f3ria da ditadura civil-empresarial militar brasileira em Porto Alegre. Dentre os diversos temas debatidos na confer\u00eancia, esta foi uma das proposi\u00e7\u00f5es aprovadas por unanimidade, ao lado de outra, n\u00e3o menos importante: a reedi\u00e7\u00e3o de um projeto de repara\u00e7\u00e3o ps\u00edquica para afetados pela viol\u00eancia da ditadura de 1964 (o projeto Cl\u00ednicas do Testemunho), extinto pelo golpe de 2016 que colocou Temer na presid\u00eancia da rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a experi\u00eancia acumulada no trabalho do projeto Cl\u00ednicas do Testemunho, pelas duas entidades psicanal\u00edticas que o executaram em Porto Alegre \u2014 a Sigmund Freud Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica e a APPOA&nbsp; (Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre) \u2014 que nos permitiu testemunhar a singularidade de cada sofrimento padecido, articulada \u00e0 coletividade do acontecido, bem como nos permitiu testemunhar a import\u00e2ncia do Estado em reconhecer lugares f\u00edsicos e em oferecer informa\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 verdade que apresentem significado simb\u00f3lico para a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia internacional refor\u00e7a os efeitos ps\u00edquicos e pedag\u00f3gicos que os Centros de Mem\u00f3ria oferecem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, ao possibilitarem a compreens\u00e3o dos acontecimentos e dos mecanismos que perfazem a hist\u00f3ria de uma sociedade. H\u00e1 um poder irradiador de pol\u00edticas de direitos humanos e de importante vigil\u00e2ncia da democracia na propaga\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias coletivas, cujos efeitos v\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 transmiss\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de horizontes de futuro e de passado para novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembremos que o Dopinho foi escolhido pelos militares brasileiros para ser um centro de tortura em fun\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, devido \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica \u201cfronteiri\u00e7a\u201d na Am\u00e9rica Latina, por esta raz\u00e3o, tornou-se o primeiro local clandestino de tortura do Brasil. Se subvertermos a l\u00f3gica militar, a mesma raz\u00e3o pode ser reiterada para que a casa que abrigou o Dopinho se transforme em Centro de Mem\u00f3ria da ditadura civil-empresarial-militar brasileira, uma vez que a capital faz \u201cfronteira\u201d com os mesmos pa\u00edses que realizaram a opera\u00e7\u00e3o CONDOR, idealizada desde o norte da Am\u00e9rica. Temos a chance de ressignificarr o Dopinho como lugar de mem\u00f3ria, como uma aposta de elabora\u00e7\u00e3o coletiva do passado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o de atos de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, e n\u00e3o mais apenas como lembran\u00e7a urbana e arquitet\u00f4nica do terrorismo de Estado. O Dopinho pode vir a ser ressignificado como uma pol\u00edtica de mem\u00f3ria comprometida com a verdade. E os sujeitos nela implicados podem ali guardar, expor e alcan\u00e7ar a outrem os horrores vividos na casa da rua Santo Ant\u00f4nio, ao tornarmos esta o Centro de Mem\u00f3ria que desejamos, deslocando-se da posi\u00e7\u00e3o que ocupa hoje frequentemente em pesadelos, em pensamentos intrusivos e medos que nunca v\u00e3o embora.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria imp\u00f5e o conhecimento do passado e de um pacto de Nunca Mais. A reconstru\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria do Dopinho exige uma \u00e9tica da mem\u00f3ria, ancorada no conhecimento dos fatos e na esperan\u00e7a do futuro em comum. Trata-se de um verdadeiro dever de mem\u00f3ria. Um Dopinho sem falsas fachadas. Neste local atroz, \u201co trabalho da mem\u00f3ria \u00e9 portanto vital\u201d, conforme nos ensina Zil\u00e1 Bernd, a saber, um trabalho que \u201cest\u00e1 t\u00e3o associado \u00e0 vida dos indiv\u00edduos em sociedade, que se torna nuclear na vida comunit\u00e1ria, determinando a constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade\u201d. E, para al\u00e9m dos que ali pereceram, a continuidade da pol\u00edtica do esquecimento que impera em nossa cidade, que faz reviver os horrores ali vividos no tempo presente e n\u00e3o somente no passado, nos interrogamos outra vez: o que sente algu\u00e9m que ali foi torturado, violado, estuprado quando passa na frente desta casa situada no cora\u00e7\u00e3o do bairro Bom Fim de nossa cidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso lutamos: transformar um lugar de tortura em um Centro de Mem\u00f3ria. Tornar p\u00fablica e conhecida a hist\u00f3ria de Porto Alegre. Ressignificar o horror de forma que outros n\u00e3o precisem viver no futuro o que j\u00e1 foi vivido no passado. Reivindicamos, assim, um trabalho de mem\u00f3ria coletivo indissoci\u00e1vel da organiza\u00e7\u00e3o da vida na cidade, cuja participa\u00e7\u00e3o efetive sem equ\u00edvocos sua dimens\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 nesse sentido que convidamos a tod(os\/as\/es) para acessarem o abaixo-assinado divulgado pelo seguinte link:&nbsp;<a href=\"https:\/\/shre.ink\/S5J0?ref=matinal.org\">https:\/\/shre.ink\/S5J0<\/a>. Convidamos tamb\u00e9m a comparecerem na Audi\u00eancia P\u00fablica que ocorrer\u00e1 dia 06\/10 \u00e0s 18h e que tem como finalidade debater justamente os caminhos e descaminhos do silenciamento em dire\u00e7\u00e3o ao conhecimento dos fatos, junto \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>Cientes de que a mem\u00f3ria social depende de gestos \u00e9ticos e pol\u00edticos, cujos reflexos anunciam o futuro poss\u00edvel, e de que os lugares de mem\u00f3ria s\u00e3o fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o do futuro, at\u00e9 o presente momento 28 entidades subscreveram a pauta do Manifesto P\u00fablico iniciada pelo Instituto Sig \u2013 Psican\u00e1lise &amp; Pol\u00edtica, tornada reivindica\u00e7\u00e3o da sociedade civil desde a Confer\u00eancia Livre de Direitos Humanos e que, sublinhamos, vem percorrendo j\u00e1 um longo caminho desde a sua reivindica\u00e7\u00e3o inicial, em 2011, feita pelo Comit\u00ea Carlos de R\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto publicado em: <a href=\"https:\/\/www.matinal.org\/all\/295-dopinho-uma-memoria-a-venda\/\">https:\/\/www.matinal.org\/all\/295-dopinho-uma-memoria-a-venda\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"template":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/acontecimento\/1684"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/acontecimento"}],"about":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/acontecimento"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museu.appoa.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}